terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Tempo

O tempo perguntou ao tempo...

Eu pergunto...

MÃE: Tenho que dar banhos, dar jantar (e almoço ao fim de semana), vestir, despir, calçar, levar brinquedos, contar histórias, fazer biberons, brincar, ensinar, passear, preparar festas de anos, ir a festas de anos, educar, gastar dinheiro, fazer fatos para os dias comemorativos originais...

EMPREGADA: Tenho que ir a reuniões, preparar sessões, pensar formas e tácticas de resolver problemas dos outros, formações, visitas domiciliàrias, ver e escolher e "fiscalizar" material de construção e plantas e legislação e mobiliàrio e utensílios, participar casos de violação a Ministério Público, ir testemunhar ao Ministério Público, dar aulas, cantar, falar com os pais, falar com escolas, reuniões com Vereador da Cultura, enviar mails, marcar aulas fazer telefonemas, dar entrevistas, divulgar, "tapar buracos"...

DONA DE CASA: Tenho que fazer jantar e almoço e lanche (e sopa!!), limpar, lavar loiça, lavar roupa, secar roupa, compras, arrumar, separar roupa que já não serve, pagar contas, pagar contas, pagar contas...

EU: Tenho de ouvir música, escrever, ler (nem me lembro da última vez que abri um livro!), passear, descançar, ter amigos em casa, passar bom tempo com a minha filha, fazer a depilação, cozinhar com amor, aprender, pensar, sentir, pintar...

Quanto tempo é preciso para poder fazer tudo isto bem feito, ter prazer em fazê-lo e ainda ser feliz??

Felicidade que anda tão perto e tão longe... em coisas tão simples completamente abafadas pelas obrigações... ideais esquecidos pelo sistema em que vivemos, que nem tempo temos de pensar em nada... o dinheiro que é necessário para comer, vestir, e para ter o mais básicos hábitos de higiene afoga-nos em tarefas árduas e cansativas, fazendo-nos esquecer o prazer que pode existir em fazer tudo!

o sol põe-se todos os dias, e quantos dias da nossa vida nós olhamos para ele?? Lembro-me de algumas vezes... em Azeitão quando era pequena... laranja e quente em dias de verão com a familia alargada, com cachos de uvas em primeiro plano e amores perfeitos a fazer o chão... ao longe, desaparece deixando uns tons entre o laranja e rosa... e aparece o cheiro de ovos recheados ou de rolo de carne feitos pelas bis-avós...

Outra, na praia do V, como lhe chamávamos... com uma cerveja na mão a molhar os pés nas ondas a rebentar com força... a saia comprida molhada, uma canção e um grupo de amigos mais atrás fazendo parte com toda a cumplicidade... penso que uma estava sentada pensativa...

Ainda outra, a caminho de uma terra de ninguém... com o mar calmo, música nostálgica, e vontade de partilhar e ensinar como pode ser maravilhoso aquele momento mínimo...

lembro-me de três ou poucas mais vezes do pôr do sol em toda a minha vida... o quanto nós andamos aleanados... revolta-me!!!